Trava no coração (Parte 02)~~~
Denise on~
— Larissa, eu estava pensando como posso me encontrar com Dominick.
— Isso vai ser bem difícil senhorita.
Disse enquanto tomávamos café da manhã juntas, um verdadeiro sonho, três sabores de bolo, pães, queijos, sucos e café, um café da manhã brasileiro de respeito.
— Ele foge tanto assim de mim?
— E depois do último encontro de vocês então…E tem o fato que a senhorita tá doente a quatro dias, talvez a melhor abordagem seja ir primeiramente até o senhor e depois mandar alguém perseguir o Dominick com o convite para vir ao Brasil.
— Como assim último encontro? Nós já nos conhecemos?
— Sim senhorita, você foi para a Itália e ficou tão perturbada que pegou um voo de volta logo após jantarem.
Minha cabeça girou um pouco, isso não estava na história, e o que quer que tenha acontecido nesse jantar pode afetar profundamente meus planos.
— Eu te falei o que conversamos?
— Sim, ele foi um abusado, te ofereceu um acordo, um casamento por três anos, em que você não se beneficiaria com nada e ainda teria que engolir a seco a amante dele, um verdadeiro sem vergonha senhorita.
— Ele teve coragem de me oferecer um acordo desses?
— Sim.
— O lado bom é que isso significa que ele está disposto a aceitar um casamento temporário, mas eu que não vou me casar sem ganhar nada com isso, liberdade eu já tenho.
— Então a senhorita está planejando aceitar o acordo?
— Só se ele tiver algo muito bom para me oferecer é claro, temos que pensar no que poderia ser.
— Posso fazer uma pesquisa sobre os bens dele, percebi que a senhora tem se interessado mais por seus bens e negócios da família, pode ser que possa tirar muito dele em troca do romancezinho que ele decidiu viver.
— Larissa, a cada dia que passo sinto que você é a pessoa que mais gosto no universo.
— Também gosto muito da senhorita.
— Vou me arrumar, vá avisar ao papai que irei vê-lo.
— Certo.
Para encarnar o poder do meu plano, abri o gigantesco closet de Luiza Rodrigues, essa menina podia ser uma pomba lesa, mas era uma pomba lesa com bom gosto, isso ninguém pode negar.
Peguei um vestido branco de algodão com renda e com a saia bufante, botei uma meia arrastão branca, e um salto alto branco, com uma fitinha atravessando o tornozelo.
Eu particularmente gosto mais de prata, mas a pele extremamente branca e vivaz da Luiza e seus cabelos e olhos castanhos claros combinam muito com ouro, diamantes, rubis e pedras azuis; destacam ela ao ponto de poder ser facilmente confundida com uma deusa.
Para hoje escolhi um grande colar de ouro que imita uma corrente presa ao pescoço, pesado, mais poderoso, pulseiras e brincos com o mesmo formato de corrente, mas mais finos. Estou convencida que essa personagem era uma encarnação de uma deusa, como essa mulher teve que se prestar a um machinho meia boca?
— Está pronta senhorita?
— Estou.
— Você sabe que está indo somente ver seu pai né?
— É justamente por isso que preciso passar uma imagem limpa, quase angelical e ao mesmo tempo poder.
— Se a senhorita diz.
— Muita coisa vai depender dessa conversa, me deseje boa sorte.
— Boa sorte senhorita.
Então caminhei do meu complexo da mansão até o central, o dos chefes da família, meus pais.
Ao chegar, o assistente de meu pai, braço direito, melhor amigo e pai da Larissa, veio me receber.
— Senhorita Luiza.
— Senhor José, é um prazer vê-lo, já faz um tempo, como está?
— Estou muito bem, tenho muito mais saúde do que um velho deveria ter na minha idade. — Eu ri.
— O senhor não é velho senhor José, se mamãe o escuta dá um cascudo no senhor, não se esqueça que ao falar de si, está falando dela também, 60 anos é uma idade muito jovem.
— Você está certa. – Ele riu. – Agora vamos que seu pai está esperando.
O segui com o coração quentinho, me senti muito bem, como se tivesse um tio carinhoso, acho que sinto mais falta da minha família do que pensei, chega a ser melancólico pensar que nunca mais vou os ver.
Acredito que é muito mais fácil aceitar perder sua família dentro de um complexo fechado e com espaço limitado, mas ao sair e interagir com outras pessoas além da Larissa, percebi que pode ser mais real do que parecia antes.
Será se vou mesmo conseguir sobreviver nessa vida? Será se vou conseguir viver essa vida? Se eu pensar bem, a mafia não é exatamente o ambiente mais fácil, todos tem seus próprios planos, ambições, e ações…
Enquanto meus devaneios me causavam uma agitação interior, às portas de madeira do escritório do meu novo e assustador pai se abriram.
— Filha, como é bom vê-la, e bem, fiquei preocupado com sua reclusão de quatro dias.
Por algum motivo, só o olhei, nada vinha em minha mente, ela ficou em branco, eu estava em paz, mas…de alguma forma não tinha o que falar a ele, um pai acolhedor, que ama sua filha, e uma filha que não é a dele em sua frente…
— Que foi? Você está magoada por não termos te visitado? Me desculpe filha, é que aconteceram tantas coisas…
Ele me olhou preocupado e se aproximou me abraçando.
— Me desculpe meu amor, seu pai nunca mais vai te deixar sozinha, principalmente quando estiver vulnerável.
Me senti voltar a mim e comecei a chorar, o que deixou ainda mais preocupado.
— Não se preocupe papai, não estou magoada, eu entendo, é só que acho que é muito coisa, estou sem conseguir processar, estou meio lenta. – E ri.
— Mas o que está acontecendo? É seu casamento? Está arrependida filha? Se estiver, não tem problema, sua irmã iria entender, todos entenderiam, principalmente porque você é muito nova meu amor.
— Não é isso papai, bem, mais ou menos, porque não nos sentamos?
Então fomos até dois sofás que ficam no meio do escritório dividido por uma mesa de centro.
— Não estou arrependida papai, quero que minha irmã viva o amor dela, e eu não me importo em ter um casamento arranjado, só que surgiu uma informação preocupante, que me deixou mal.
— Qual informação?
— Eu fui encontrar o Dominick em segredo quando disse que ia para Roma visitar minha amiga.
— Isso não se faz Luiza! E se algo tivesse acontecido? Nós não saberíamos, o ambiente da mafia é perigoso, ele poderia ter sido atacado, se você queria encontrar com ele, você me pedia e eu faria isso acontecer da forma mais segura filha.
— Ficou tudo bem papai, mas eu precisava conhecê-lo, afinal, na minha cabeça mesmo nos casando por contrato, como viveríamos o resto da vida juntos, queria que fôssemos ao menos amigos. Mas não acredito que isso vá acontecer.
— Porque?
— Ele me disse que tinha uma amante, e que não iria deixar de vê-la, ainda me propôs um acordo em que só ficaríamos casados por três anos para não manchar a minha imagem, dá para acreditar papai?
— O que esse muleque pensa que é? Como ele ousa humilhar minhas filhas? A família Bianchi Esposito pensa que pode ganhar dinheiro e expandir território por meio da família Rodrigues? Nunca, não se preocupe filha, vou desfazer esse compromisso.
— Não papai, eu tive uma ideia, planejo aceitar o acordo.
Meu pai se levando do sofá com tamanha força que o sofá arrastou para trás.
— Calma pai, estive pensando, agora nós temos uma vantagem sobre a família Bianchi, imagine, que família iria casar a filha deles com o Dominick se essa informação vazasse? E ainda por cima, qual família pagaria por isso? Ofereceria vantagens a eles em troca de um casamento.
— Praticamente nenhuma, com certeza nenhuma de respeito.
— Então, não seria muito mais vantajoso se casar comigo, sem receber nada por isso e ainda ter que me dar metade de tudo que é deles depois de um divórcio?
Os olhos de João Rodrigues brilharam e ele gargalhou.
— Gosto do seu plano filha, irei mudar os termos do acordo com eles e se não aceitarem, boa sorte a eles.
— Não, acredito que será muito mais vantajoso se fingirmos que ninguém além de mim e Dominick sabem do acordo, poderemos tirar muita vantagem deles nesses três anos.
— Certo, então você se encontrará em “Segredo” com ele novamente.
— Vou marcar um encontro agora mesmo.
Nesse momento, o assistente José entrou e disse:
— Senhor, o jovem Dominick Bianchi mandou avisar que está vindo nos visitar, chegará amanhã, vamos começar a arrumar tudo para sua chegada.
— Ele deveria ficar era num chiqueiro, quem esse Bianche acredita que é para vir a nossa casa sem pedir e sem aviso prévio?
— Senhor, não seja assim, os jovens são desse jeito imediatista.
— Isso se chama falta de educação.
— Papai, na verdade é bom que ele venha.
Eu e meu pai nos olhamos, nossos olhos se comunicando, comemorando o início de nossos planos.
— Verdade minha filha, é muito bom que vocês poderão se encontrar, o jovem Bianchi será muito bem vindo.
O senhor José sorriu sobre como o seu senhor ouvia sua filha e a amava, sem imaginar os planos e armações que se passavam na mente dos dois Rodrigues a sua frente.
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