Introdução:

— Layla! Você não vai acreditar — disse minha amiga, entrando com tudo no meu quarto.

— No quê? — eu disse, revirando os olhos, fingindo desinteresse.

— Você viu que um candidato à presidência de um país chamado “República das Estrelas” lançou uma criptomoeda hoje, a dois dias da eleição?

— E?

— E?! E?!! — ela pulou, empolgada.

— Isso está sendo um grande bafafá. Dizem que é crime, ninguém tá comprando, dizem que é ridículo gastar tempo com algo assim. Outros dizem que não faz sentido adquirir a criptomoeda porque ela não tem uso real, e ainda tem gente dizendo que é como uma memecoin.

— E por que eu sinto que você também tem algo a dizer?

— Porque eu tenho! Pra mim, a galera está ignorando o grande potencial de valorização que a moeda vai ter. E não vai ser por muito tempo, provavelmente vai durar poucos minutos.

Ela parou séria, me olhou no fundo dos olhos e sentou na minha cama, respirando fundo.

— Essa é a oportunidade das nossas vidas, amiga. Eu sei que você tem reservas que começou a juntar desde os 14 anos. Agora é a sua hora de usar. Cada criptomoeda tá valendo 10 centavos de dólar agora. Eu peguei dinheiro emprestado com Deus e o mundo e consegui 27.800 reais. Já comprei tudo mais cedo, quando estava a 0,5 centavos de dólar.

— Você está louca, Daniella? E se nada do que você está prevendo acontecer?

— Bom, nesse caso, baixar de 10 centavos de dólar é que não vai até daqui a dois dias. No mínimo, vou ter o dobro do valor. Tô te dizendo, compra agora, que mesmo que ele perca, isso vai dar uma valorizada na moeda.

— Você tá louca. E, se você pensou nisso, por que os especialistas não? Por que eles não estão comprando?

— Pelo mesmo motivo que eles nunca compram nada e só reclamam em seus comunicados. Olha, tenho que ir, minha mãe tá me esperando. Mas vê se me escuta, ok? Eu só contei isso pra você. Se muita gente souber, nossas possibilidades de ganhar uma bolada acabam.

— Vai lá, doida. Prometo que vou pensar.

Quando a Daniela saiu, mandei mensagem perguntando se ela não tinha falado com os pais sobre isso, e ela me respondeu:

“Eles fingiram me escutar. Disseram ‘tá bom, vamos pensar’ e isso virou ‘as besteiras que eu assisto’. Bem, eles que perdem.”

Eu ri. A Daniela não tem jeito, vive descobrindo coisas mirabolantes que vão mudar nossas vidas.

Nossas vidas nem são tão ruins. Somos classe média baixa, estudamos em bons colégios particulares, provavelmente vamos direto para a universidade pelo Enem. Mas eu respeito a garra dela de querer ser grande, por isso sempre fiz parte de tudo.

Entretanto, comprometer o dinheiro que venho juntando desde os oito anos de idade já me parece extrapolar os limites do aceitável para apoiar a ambição de uma amiga.

Quando eu tinha oito anos, falei para um amigo do meu pai, que estava nos visitando dos Estados Unidos, que eu planejava ser muito bem-sucedida quando crescesse, para poder fazer muay thai, balé e aulas de música, viajar o mundo inteiro e ter uma casa com um tobogã que saísse do meu quarto e fosse até a piscina.

Então ele me perguntou algo que arrisco dizer que ninguém perguntaria a uma criança:

— E como você planeja ter condições para fazer tudo isso? E se manter?

Na hora, disse que não entendi. Então ele, educadamente, me explicou minha posição social e financeira, e o que era o dinheiro e seu valor.

Após entender, perguntei quais profissões me fariam ganhar muito dinheiro, e ele citou medicina, engenharia etc.

Fiquei triste e perguntei se escritores ganhavam bem, porque eu queria ser escritora.

Ele me respondeu sinceramente:

— Não.

Depois disso, disse que, se eu quisesse ser escritora mesmo assim, poderia me desenvolver em educação financeira.

Fiquei três meses obcecada por esse tema e encontrei um livro chamado “Pai Rico, Pai Pobre”. Foi ali que entendi que poderia investir.

Pedi ao meu pai para abrir uma conta de investimentos para mim, mas ele recusou. Em compensação, prometeu me dar 300 reais por mês, além do que já gastava comigo, para que eu guardasse. No futuro, eu teria controle sobre minhas decisões financeiras.

Fiquei completamente obcecada por guardar dinheiro. Meu pai me dava 10 reais por dia para a merenda na escola. O que fiz? Comecei a tomar café reforçado em casa e levar uma maçã todos os dias, com a desculpa de que adorava e não vendia na escola.

Resultado: mais 200 reais por mês.

Além disso, todo dia — incluindo sábado e domingo — meu pai me dava 20 reais à tarde para lanchar, sair com amigos ou comprar coisas. Isso dava cerca de 600 reais por mês.

No total: 300 + 200 + 600 = 1.100 reais por mês.

Naquela época, mesmo entendendo que precisava guardar dinheiro, eu ainda não compreendia o valor real disso.

Nunca contei ao meu pai. Comecei no início de julho, e, considerando que hoje é 09 de abril de 2026, se passaram 9 anos e 6 meses. Isso dá um total de R$ 125.400,00.

Mais do que suficiente para investir e gerar cerca de mil reais por mês. Como moro no interior e pretendo fazer faculdade aqui em Belo Jardim, o custo de vida é baixo. Além disso, meu pai disse que continuará me apoiando financeiramente.

A Daniela só pode estar louca se acha que vou arriscar tudo por uma aposta tão alta.

Fiquei incomodada com a impulsividade dela. Pegar 28 mil emprestados por algo que pode valer zero… Mesmo que volte ao valor inicial, ela ainda teria que pagar taxas.

Depois de andar pelo quarto umas dez vezes, me deitei, peguei o celular e pedi para uma inteligência artificial calcular:

“Quanto dessa criptomoeda chamada ‘Estar’ eu teria se convertesse 125 mil reais, considerando o valor de 10 centavos de dólar?”

[…]

— Nossa… se isso valorizasse só um real, eu nunca mais precisaria me preocupar com dinheiro. Que loucura… dá pra entender a Daniela. É bem tentador.

Abaixei o celular e olhei para o teto.

— Parando para pensar… o quão impossível seria essa moeda chegar a 1 dólar? As eleições são daqui a um dia… grandes sonhos exigem grandes investimentos…

Ri de mim mesma. Estou me deixando influenciar demais pela Daniela.

Fui ao banheiro, tomei banho e voltei para a cama. Quando me acomodei, de olhos fechados, comecei a imaginar como seria ganhar muito dinheiro do nada.

Com o que eu gastaria?

Eu sempre personalizo Rolls-Royce na internet… poderia comprar um. Tem também aquela casa de 100 milhões em Campina Grande que vi no YouTube.

Eu poderia conseguir um green card e morar em Nova York… viver como uma escritora global.

E então veio o pensamento principal:

“E se chegar a 10 dólares?”

Virei na hora, transferi todo meu dinheiro para uma corretora e, em um clique, R$ 125.400,00 se transformaram em 194.690,26 tokens.

A essa altura, a Estar já valia 0,1133 dólares.


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