Introdução:
Enquanto andava em recife, uma cidade desconhecida que nunca terei a capacidade de conhecer, passei por um grande prédio destruído e pichado que ficava de frente ao grande rio fedorento que atravessa a cidade.
Às portas me davam a ideia de ser uma igreja de bairro, mas um cartas velho e meio solto dizia “Teatro”.
Imaginei artistas loucos, superficiais, profundos e vulgares se apresentando.
Alguma peça política talvez, com homens vestidos de mulher travando uma batalha com máscaras de presidentes.
Talvez alguma feminista falando sobre a dor da mulher, o estupro e a violência doméstica.
Lembrei de um trecho de uma música:
“Antes de ser minha mãe você tinha um nome
Antes de ser minha mãe,
Você lutava para ser alguém.
Planos e sonhos jogados
Para você ser minha mãe”.
É, seria reconfortante ouvir alguém que realmente se importe com as mulheres, alguém que realmente acredite que não estamos fudidas.
Também seria divertido se fosse uma anti-feminista que atrai mulheres para viverem seus contos de fadas enquanto ela mesma nunca terá um marido e sim uma carreira de sucesso.
Bem, aquelas que se juntam ao inimigo, nunca serão vítimas dele, a menos que elas acreditem mesmo que não estão.
Ouvi recentemente que a palavra “Traidora de gênero” foi usada em obras para se referir a pessoas lgbtqia+, a única coisa em que consegui pensar foi que os homens correram para dar logo uma definição ao termo que não pudesse ser usada contra quem realmente o merece.
Arrombados.
O ar gelado me tornou autoconsciente e pensei em ir para meu hotel acabado, mas com um quarto limpo e uma cama confortável.
Que se fodam os artistas, segui em frente, passo a passo pensando que devia ter pego um táxi, mas não valia a pena naquele momento, já tinha sofrido muito, precisava terminar aquele caminho.
Então os ladrilhos de banheiro verdes da faixada do hotel surgiram diante dos meus olhos acabando até com o pingo do meu último humor causado pela lamúria do caminho.
Peguei um carro e voltei àquele teatro xexelento. De certo ele não me decepcionaria.
Quando cheguei à porta, fui barrada logo de cara.
— Senhorita, temos uma peça acontecendo agora, mas não pode entrar mais ninguém — avisou a pessoa na entrada.
— Não farão nenhuma outra sessão?
— Já é meia-noite, eles se apresentam o dia inteiro. Você pode voltar amanhã.
— Tem mais alguma coisa hoje? — insisti, me recusando a voltar para aqueles ladrilhos verdes.
— Bem… Um workshop de oratória.
— Ótimo…
— Qual é o seu nome senhorita?
— Clara Martins.
Às vezes os certos são aqueles que dizem que apoiar artistas brasileiros não serve pra nada.
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